Cantareira: 180 Morumbis desmatados

OESP, Metrópole, p. C10 - 16/03/2008
Cantareira: 180 Morumbis desmatados
Devastação voltou a atingir a Serra nos últimos três anos; só para casas e condomínios foram dados 865 alvarás

Gabriela Carelli e Diego Zanchetta

Em um dos pontos mais altos da Serra da Cantareira, em Caieiras, o grupo católico Arautos do Evangelho construiu uma espécie de paraíso na Terra. Quaresmeiras e manacás moldam uma clareira de concreto de 12 mil metros quadrados, base de sustentação para prédios, casas, quadra esportiva e estacionamentos do empreendimento. O "castelo" - apelido dado pelos moradores da região ao complexo - chama a atenção pelas dimensões avantajadas e suspeitas de irregularidades, mas a obra é apenas uma entre muitas que têm contribuído para a devastação da área. Nos últimos três anos, a Serra da Cantareira, uma das maiores florestas urbanas do mundo, perdeu 1,4 milhão de metros quadrados de área verde - o equivalente a 180 campos de futebol iguais aos do Morumbi.

Estudo inédito do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Fundação SOS Mata Atlântica detectou 16 polígonos de desmatamento no entorno do Parque Estadual da Serra da Cantareira, área de preservação. A pesquisa não só revela aceleração do desmatamento, estagnado entre 2000 e 2005, como mostra uma mudança no processo de devastação. "Nos anos 90, a causa principal era a profusão de lotes clandestinos. Hoje, quem rouba o verde é a ocupação regular", diz Márcia Hirota, da SOS Mata Atlântica.

Na Estrada de Santa Inês, altura do km 10, entre Caieiras e São Paulo, placas de "vende-se" e "proibido construir" disputam o mesmo espaço. É um reflexo do avanço da urbanização na serra que tanto preocupa os ambientalistas. Em três anos, foram expedidos 865 alvarás para casas e condomínios na bacia do Juqueri-Cantareira, que compreende Mairiporã, Caieiras, Franco da Rocha e São Paulo. De todos, Mairiporã é o que tem maior movimento imobiliário. Nos últimos dez anos, a área urbana do município cresceu 41,5%. "A ocupação danificou mais de 12% de mata atlântica", diz Pilar Cunha, do Instituto Socioambiental (ISA).

A maioria das casas e condomínios erguidos na Serra da Cantareira está dentro da lei. Licenças ambientais são concedidas mediante laudos de flora e fauna. As análises determinam o quanto pode ser construído, o total a ser mantido intacto e o reflorestamento posterior à obra. Há dois problemas, segundo especialistas. O primeiro é o cumprimento pelos proprietários de contrapartidas ambientais impostas pelo governo - com a fiscalização precária, ele dificilmente ocorre. Só na Promotoria de Caieiras, há 16 inquéritos de irregularidades em condomínio.

O segundo é mais complexo: as leis brasileiras sobre ocupação de áreas verdes estão ultrapassadas, datam de 1977 e não levam em conta a atual situação ambiental. Quem arca com o prejuízo é a população. A serra é fundamental ao abastecimento de água da Grande São Paulo, tem enorme influência na regulação climática e ameniza a poluição.


Governo libera até construção de castelos
Arautos do Evangelho erguem três complexos na mesma área da Serra

Gabriela Carelli e Diego Zanchetta

Para quem cultua o belo e busca a perfeição, não há lugar melhor do que a Serra da Cantareira. Prova disso é a expansão na região dos templos dos Arautos do Evangelho, grupo católico ultraconservador, dissidente da Tradição, Família e Propriedade (TFP), que tem como um dos lemas "a beleza salvará o mundo". Entre 2005 e 2007, a associação conseguiu licenças ambientais para a construção em quatro terrenos na região. Um deles, na altura do km 14,5 da Estrada de Santa Inês, em Caieiras, é sede do "castelo", inaugurado no fim do mês passado. É uma edificação impressionante. Os prédios têm colunas de 10 metros de altura, há um salão para cantos gregorianos e aposentos inteiros com chão de mármore. Isso sem falar no espaço para prática de esportes. Os arautos cuidam do corpo com esmero. Fazem muita ginástica - sueca - e gostam de nadar em alto mar.

A menos de três quilômetros dali, no topo de um morro dentro do Residencial Jardim Planalto, também em Caieiras, está em construção um segundo palácio. Há ainda uma terceira obra dos religiosos, cinco quilômetros distante da Represa de Mairiporã, no fim da Estrada da Caceira, no mesmo município. Nos empreendimentos, os arautos poderão dedicar-se ao estudo da música erudita - eles se apresentam em festas litúrgicas e concertos - e aprimorar seus conhecimentos de teologia e filosofia. Dentro do "castelo" foi construído um seminário e um colégio. Os locais servirão também para reunir os jovens, alvo da missão "evangelizadora" do grupo.

Todos os empreendimentos seguem as determinações do Departamento de Uso do Solo Metropolitano (Dusm) no que diz respeito às edificações. Mas isso não isenta os Arautos por completo. O Ministério Público Estadual de Caieiras investiga irregularidades, como supressão de vegetação e captação de água em mananciais da serra - pela licença, as obras só podem usar água de poço. As denúncias foram feitas por vizinhos que se sentiram prejudicados.

Mais do que as supostas irregularidades, as obras dos Arautos preocupam os ambientalistas por serem um pólo de atração de milhares de pessoas - o grupo planeja reunir 20 mil jovens em encontros nos fins de semana. "Uma obra dessas tem inúmeras implicações", diz Márcia Hirota, da Fundação SOS Mata Atlântica. "Para que as pessoas cheguem lá, estradas precisam ser abertas no meio da serra - e as fotos revelam que isso já está acontecendo", acrescenta a ambientalista. "Sempre que há um projeto grandioso em execução, é preciso levar em conta o surgimento de moradias em áreas próximas da obra."

A Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo informou que os Arautos, sob o nome jurídico de Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima, conseguiram as licenças com pareceres favoráveis da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Outros dois pedidos de expansão para empreendimentos estão sob análise do governo.

Em contrapartida às concessões, os religiosos terão de averbar 20 hectares de terra e replantar 32.191 mudas de espécies nativas. Do total, o grupo replantou 2.722 árvores, segundo resposta oficial encaminhada ao Estado. Religiosos afirmaram também cumprir compromissos firmados com o governo. Um terço do terreno do primeiro templo, de mais de 9 hectares, será destinado à reserva ambiental, garantiu o grupo.

CELIBATÁRIOS

Reconhecidos em 2001 pelo Vaticano como Associação Internacional de Fiéis do Direito Pontifício, os Arautos dedicam-se quase por completo à vida religiosa - seus integrantes passam até 15 horas por dia em estudos da Bíblia e ensaios de cânticos gregorianos. O grupo pratica o celibato e defende o criacionismo.

Integrantes da cúpula são chamados de "consagrados". Eles moram em casas dentro dos próprios templos, erguidos com o dinheiro de doações. Mulheres participam do movimento, mas residem em espaços próprios. Há regras para tudo. Existe uma seqüência para lavar os dedos da mão e o lado correto de vestir e despir roupas. "Buscam-se a simetria perfeita e a beleza dos movimentos", explica um texto da Revista Arautos, publicação do grupo.

As roupas dos Arautos diferem da tradicional veste católica. A batina medieval tem a estampa da cruz de Santiago, para lembrar o calvário. A corrente no pescoço é sinal de devoção a Nossa Senhora, assim como o rosário pendurado. As botas de cavalaria lembram o arauto de que ele é um mensageiro de Deus e deve estar pronto para percorrer o mundo.

EXPANSÃO

Em pouco menos de sete anos de reconhecimento, o grupo espalhou-se por 62 países, com 1 milhão de fiéis. No Brasil, além dos três templos na Cantareira, mantém dois colégios de ensino infantil e fundamental. E tem 200 imóveis. Ordem religiosa, o grupo pode ter padres ordenados, formados em centros teológicos próprios.


9 milhões de pessoas dependem da água da Serra

O desmatamento da Cantareira não ameaça apenas o hábitat de macacos bugios, suçuaranas e pica-paus. Os reflexos do que acontece lá afetam a vida de milhões de pessoas. A devastação assoreia córregos e represas, agrava o risco de enchentes e reduz a umidade do ar - o que provoca um aquecimento que se percebe a quilômetros. É fácil de se notar: na Cantareira, a temperatura é até 10oC mais baixa do que na Sé. Isso sem falar na importância da serra para o abastecimento de água. Conhecida pela abundância de água, armazenada em cântaros no século 19 (daí o nome), a serra, cortada por mais de cem mananciais, é fundamental no Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de água em metade da Grande São Paulo - dependem dele 9 milhões de pessoas.

Os impactos ambientais da urbanização registrada na região nas últimas décadas, e que cada dia mostra-se mais intensa e desordenada, resultou na perda da capacidade hidrográfica do sistema. Um estudo do Instituto Socioambiental (ISA) mostra que 73% das áreas de preservação do Sistema Cantareira foram degradadas por algum tipo de atividade humana. "Essa degradação comprometeu a capacidade de recuperação das represas na estiagem", diz Pilar Cunha, do ISA.

Apesar de as construções não estarem dentro do Parque Estadual da Cantareira, área de proteção total, elas provocam a chamada pressão do entorno. "Isso afeta todo o ecossistema da região", diz Kátia Mazzei, do Instituto Florestal. A fauna que habita os 56 milhões de metros quadrados de mata atlântica da Cantareira sofreu alterações nos últimos anos.

Um levantamento da bióloga Sandra Favorito, da Uniban, que estuda a fauna na Serra há dez anos, notou que pelo menos duas espécies de ratos silvestres, duas de peixes e o sapo dourado, há pouco comuns no entorno, só são encontrados dentro do parque. "Quanto mais a floresta é fragmentada por causa da expansão imobiliária, menores, as chances de os animais sensíveis sobreviverem", diz. Outro receio dos biólogos em relação à urbanização é o contato de animais domésticos com silvestres, que pode levar às populações doenças como raiva, hantavirose e leptospirose.

OESP, 16/03/2008, Metrópole, p. C10
UC:Parque

Unidades de Conservação relacionadas

  • UC Cantareira
  • UC Alberto Lofgren (Horto)
  •  

    As notícias publicadas neste site são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.